Mais da metade das incorporadoras brasileiras (56,5%) já utiliza Inteligência Artificial em alguma etapa de suas operações. Em Curitiba, empresas do setor começam a transformar essa adoção em resultados concretos, com aplicações que vão do atendimento comercial à negociação com fornecedores, da automação de processos ao apoio às decisões estratégicas.

O tema foi discutido em workshop e benchmarking promovidos pela ADEMI-PR, reunindo especialistas e empresas associadas para compartilhar experiências e aplicações práticas da tecnologia. Os cases apresentados mostram que a Inteligência Artificial já começa a mudar a forma como incorporadoras operam, atendem clientes e conduzem seus negócios.

Para Gabriel Falavina, vice-presidente da ADEMI-PR, diretor do GT de Incorporação da entidade e CEO da Altma Incorporadora, o mercado imobiliário paranaense ainda está em um estágio inicial quando comparado a outros setores da economia. A diferença, segundo ele, está na velocidade com que algumas empresas começam a construir uma vantagem competitiva difícil de recuperar.

“Ficou claro que as empresas que têm a IA enraizada culturalmente ganham vantagem competitiva em todas as suas frentes. Avançam de forma mais rápida, mais eficiente e mais econômica. Isso cria um distanciamento real em relação a quem não está atento ao tema.”

Durante o benchmarking, as aplicações compartilhadas pelas empresas foram organizadas em três níveis de maturidade: ganho de produtividade, geração de valor e mudança estrutural. Hoje, a maior parte das iniciativas locais ainda está concentrada no primeiro estágio, embora algumas incorporadoras já avancem para aplicações mais estratégicas.

Da resposta em um minuto à qualificação de leads 20 vezes maior

Na Hype Incorporadora, a decisão de estruturar uma área própria de tecnologia foi tomada há cerca de cinco anos e ganhou força nos últimos três. Atualmente, dez profissionais atuam em produto, desenvolvimento e infraestrutura, sendo responsáveis por softwares, dados, integrações, redes e servidores da companhia.

Um dos principais resultados dessa estratégia é a Helena, assistente virtual criada inicialmente para atuar como SDR na qualificação de leads e no apoio à comunicação com corretores. Em apenas cinco meses de operação, a ferramenta multiplicou em mais de 20 vezes a taxa de qualificação de leads.

O primeiro contato acontece em até um minuto, e o atendimento funciona 24 horas por dia, sete dias por semana, sem custo adicional por horário.

A disponibilidade atende a uma realidade importante do mercado: quase metade dos leads da incorporadora chega fora do horário comercial, principalmente durante a noite e nos finais de semana. Além da qualificação inicial, a Helena também passou a atender clientes da base e automatizar o agendamento de vistorias de assistência técnica.

“Investir em tecnologia deixará de ser diferencial e se tornará pré-requisito de sobrevivência no mercado imobiliário”, afirma Letícia Christensen, diretora de CX & Tecnologia da Hype.

Segundo ela, o próximo passo será migrar de uma operação reativa para uma operação preditiva, utilizando dados integrados para antecipar inadimplência, identificar falhas no pós-obra e prevenir outros problemas antes que eles aconteçam.

A empresa também disponibiliza ferramentas de IA generativa para seus colaboradores e já utiliza a tecnologia na análise de dados, elaboração de relatórios, automações, produção de documentos e contratos. A priorização dos projetos segue um critério bastante objetivo: retorno sobre o investimento.

“A tecnologia só avança se ajudar a empresa a gerar mais receita ou gastar melhor”, explica Letícia.

Inteligência Artificial já negocia com fornecedores

Na ATR Incorporadora, a Inteligência Artificial passou a atuar em uma das áreas mais estratégicas da empresa: suprimentos.

Integrada ao ERP Sienge, a plataforma Dgenny automatiza praticamente todo o fluxo de cotação a partir da emissão de uma Solicitação de Compra.

A tecnologia identifica as informações do pedido, aciona fornecedores homologados via WhatsApp, busca novos participantes para ampliar a competitividade e negocia automaticamente preços, prazos de entrega e condições comerciais. Ao final do processo, todas as propostas são consolidadas no mapa de cotação do próprio ERP.

Segundo Danyelle Lopes, gerente Administrativa e de Recursos Humanos da ATR, a mudança reduziu significativamente o tempo dedicado às atividades operacionais, retrabalhos e controles paralelos.

Com isso, a equipe de Suprimentos passou a concentrar esforços em atividades de maior valor agregado, como análise técnica e financeira, geração de savings, negociação e desenvolvimento de fornecedores.

“A rotina passou a ser mais dinâmica e orientada por dados. As equipes dedicam menos tempo às tarefas repetitivas e mais à análise, ao planejamento e à melhoria contínua dos processos.”

A implantação também revelou um aprendizado importante: antes de automatizar processos, foi necessário estruturar e padronizar as informações para que a Inteligência Artificial pudesse interpretar corretamente os dados disponíveis no sistema.

O próximo salto está na inteligência do negócio

Embora produtividade e automação liderem as aplicações atuais, a transformação mais profunda tende a acontecer quando a Inteligência Artificial passar a participar diretamente das decisões de incorporação.

No mercado internacional já existem aplicações voltadas à precificação dinâmica de unidades, previsão de demanda, análise de terrenos e estudos de viabilidade realizados em uma fração do tempo exigido pelos modelos tradicionais.

Para Gabriel Falavina, esse movimento representa uma mudança importante na forma como os empreendimentos são concebidos.

“Com apoio de IA, a incorporadora passa a decidir produto, localização e preço com mais inteligência. O produto imobiliário nasce mais aderente à demanda real, com menos risco e menos capital imobilizado em erro de concepção.”

A área comercial tende a ser uma das primeiras a acelerar essa transformação. Segundo o vice-presidente da ADEMI-PR, gerar visitas continua sendo um desafio comum às incorporadoras.

Enquanto equipes humanas operam em horários limitados e estão sujeitas às variações naturais da rotina, sistemas de Inteligência Artificial conseguem atender continuamente, seguir processos de forma consistente e alimentar o CRM com disciplina.

O desafio passa a ser combinar essa eficiência operacional com um atendimento que preserve a dimensão humana da compra de um imóvel.

Milhões de atendimentos já realizados

Os números da Morada.ai ajudam a dimensionar o potencial dessa transformação.

Em 2025, a assistente virtual Mia participou da jornada de venda de 15 mil imóveis e esteve envolvida em mais de R$ 15 bilhões em VGV, considerando os leads que passaram pela plataforma.

A tecnologia já realizou mais de 3,1 milhões de atendimentos e processou mais de 71 milhões de mensagens.

Os dados também mostram uma mudança importante no comportamento dos consumidores: 52% dos leads iniciam conversas fora do horário comercial e 24% fazem contato durante a madrugada.

Para Luis Veloso, CRO da Morada.ai, a discussão sobre adoção da tecnologia já ficou para trás.

“A Inteligência Artificial deixou de ser uma tendência distante e passou a fazer parte da operação do mercado imobiliário. O desafio agora não é mais convencer o setor sobre a importância da tecnologia, mas transformar esse uso em resultado concreto de negócio.”

Segundo ele, a próxima fronteira será integrar a Inteligência Artificial em toda a jornada do cliente, desde a captação do lead até a análise de crédito, passando por simulações financeiras, agendamento de visitas e suporte aos corretores.

Nesse cenário, a tecnologia assume as etapas de escala e processamento de informações, enquanto os profissionais concentram esforços na negociação, no relacionamento e no fechamento das vendas.

A transformação começou

Os cases apresentados durante o benchmarking promovido pela ADEMI-PR mostram que a Inteligência Artificial já faz parte da rotina de incorporadoras brasileiras e começa a gerar ganhos concretos em produtividade, eficiência operacional e qualidade das decisões.

Embora as aplicações ainda estejam em diferentes estágios de maturidade, a tendência é que a tecnologia avance rapidamente para áreas cada vez mais estratégicas do negócio.

Como resume Gabriel Falavina:

“Quem construir hoje a cultura e a base de dados necessárias estará muito à frente quando esse segundo momento chegar.”



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